8.7.09

estava eu a pensar em mil coisas e depois quase sem querer pensei em ti, mas não te quis escrever palavra alguma sobre os meus pensamentos, nem sequer às outras mil coisas que já tinha pensado. Peguei então num dos meus livros preferidos e li numa página qualquer,

"Ontem à noite, disse ele entre outras coisas: «Tenho a impressão de ser um "estado preparatório" para um grande amor teu. É muito estranho, já fui um "estado preparatório" para muita gente.» E embora seja verdade, provoca-me por um lado uma dor intensa e não me conformo com essas palavras. Acho que compreendo porquê. Para ser franca, acho que ele devia ficar louco de ciúme só de pensar que um dia há-de haver um grande amor na minha vida. Aí está mais uma vez a exigênia do absoluto. Ele tem de me amar única e eternamente. O conceito «estado preparatório» relativiza tudo. E contudo esses «única» e «eternamente» são uma especie de ideia fixa. Nos últimos dias, ando lasciva. Anteontem à noite tive outra vez uma obsessão com a boca e mãos dele, e tudo o resto deixou de ter importância. E ontem à noite, isso voltou outra vez em força. E quando ontem à noite ele me telefonou às nove horas: «Ainda lhe apetece vir cá?», fui pois, com alegria e sensualidade e entrega. Mas, estás tu a querer convencer-me, minha linda, que é só sensualidade? Não caímos propriamente logo nos braços um do outro, primeiro conversámos intensamente acerca daquele terrivelmente interessante e dividido assunto da parte da tarde. E nesses momento bebo-lhe as palavras, de cada vez acho edificante a sua maneira neutra e clara de formular as coisas, tenho a sensação de aprender imenso com isso, e sinceramente esse contacto espiritual satisfaz-me muito mais do que o físico. Talvez eu tenha uma inclinação para sobrevalorizar a parte física, em parte também devido a uma ou outra ficção de que isso é tão feminino. Pois, verdadeiramente esquisito. Agora mesmo a sensação que tenho é de que gostaria de me aninhar nos seus braços e ser só uma mulher ou menos do que isso ainda, somente um pedaço de carne acarinhado. Sobrevalorizo demasiado o sensual. Sobretudo porque de cada vez é somente uma questão de dias, esse aparecimento da sensualidade uma vida inteira, dominando o resto. "

Diário 1941/1943 - Etty Hillesum

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