1.5.10

vozes

Confesso, que no meu íntimo, sempre achei que a Ana, era uma segunda voz para mim, falo com ela, e ela volta a dizer tudo o que sinto da forma mais bonita que conheço. Seja maravilhoso ou terrível o que penso e sinto, ela sabe-o, ela entende-o. Esta sensação, de que alguém tão próximo me pode entrar na cabeça, e saber-me tão bem, deixa-me confortável e perdida, talvez um dia, tenha que lhe negar as coisas que ela possa vir a descobrir no fundo da minha alma, ou talvez deite a minha cabeça no seu colo e sem palavras, lhe conte exactamente como tudo foi. - Isto, escrevi eu, numa dessas noites, antes de adormecer, e voltei a reforçar esta mesmo ideia, quando depois de alguns dias de conversas rápidas - e peço desculpa, mas tenho andado tão "cansada" - ela faz um comentário, um daqueles comentários que eu tanto gosto de receber, e por incrivel que pareça, consigo encontrar-me, em todas as entrelinhas.

ps.: ontem não o disse, que-não-tive-tempo, mas tu escreves mais que bem.

"Hoje, mais uma vez, levantei as mãos ao céu, estiquei os braços até sentir que os meus ossos se iriam separar, os meus músculos se iriam desfazer e a minha pele se tornaria elástica, e agarrei num pedaço do céu e puxei. Puxei com toda a minha força, todo aquele ódio e carências reprimidas de memórias demasiado longas para serem faladas, demasiado vagas para serem compreendidas. Puxei até rasgar, como quem rasga um tecido velho para depois usar como pano de pó, rasgar como se rasgam aquelas folhas cheias de apontamentos desactualizados de matérias decoradas e não percebidas, de exames rígidos que avaliam o nosso esforço momentâneo e não os nossos sonhos e diversos talentos. Talvez eu queria antes rasgar-me a mim mas não tinha coragem, é tão mau fácil magoar tudo o que nos rodeia pois há sempre justificação válida, foi um acidente, estou transtornada, sofro de doenças mentais, era uma vingança, foi um reflexo, o álcool é que falou por mim, ele batia-me, ela gozava comigo, eles rejeitavam-me, o meu patrão era forreta, os meus pais nunca me apoiaram, há sempre uma razão que nunca é totalmente justa mas nunca é totalmente errada, pois ninguém sabe o quão preto anda o coração das pessoas. Ninguém sabe o cheiro a merda e podre que paira dentro da nossa cabeça, entranhado nos nossos pensamentos mais secretos que apenas se revelam para a fatalidade. Rasguei um pedaço do céu, o suficiente para envolver o meu corpo, como uma capa e por tal despi a roupa toda e vesti essa minha nova aquisição. Talvez se alguém tivesse visto o meu crime e chamasse a polícia, assim mandavam-me para um cubículo, onde passaria anos e com alguma sorte alguém olharia para mim e se iria apaixonar pela minha miséria e esperar por mim quando eu saísse. E num daqueles longos dias de reabilitação, ouviria um pedido de casamento e um vamos ser felizes e ainda quem sabe um vamos ter filhos e tornar as nossas mágoas em esperança. As pessoas pensam sempre que podem ser pessoas novas quando os corpos só ficam mais velhos com o tempo. Quem iria garantir a essa pessoa que eu não iria traí-la ou até comer os nossos filhos? Ninguém. Quem quer que fosse o outro, apenas poderia acreditar e ter fé pois promessas não evitam desgraças, palavras bonitas não desculpam acções. Ou talvez alguém pensasse que eu era um anjo que tinha caído por aquele buraco que eu própria criei quando rasguei o céu e começasse a rezar-me e a pedir para eu a ajudar. Talvez as pessoas começariam a vir ter comigo a sorrir e a pedir para eu ser amigas delas, quase como um Deus mas oh eu não quero assim tanta fama. No entanto, só estou aqui, nua, mal tapada com um pedaço de céu e as pessoas passam e não dizem nada, mas sei que estão a pensar que eu sou doida e como já ninguém olha para os olhos nem para cima, ninguém vai notar que o céu está diferente. Não vão perceber, não me vão valorizar, no entanto vão-me criticar e julgar, sem qualquer contacto estabelecer comigo. Isto não é justo. Saí à rua e escolhi uma roupa bonita e nada aconteceu. Então mudo de roupa e continua a nada acontecer. O que queres de mim mundo? O que queres que eu faça para que tu saibas que eu existo e que estou aqui? Será que isto é tudo uma mensagem a confirmar que não devo viver? Que ninguém precisa de mim? Eu acredito que há quem possa tomar consciência disso mas eu por mais deprimida que esteja eu não quero acreditar nem aceitar que não precisas de mim. Eu pago os meus impostos, eu faço parte das muitas rodas dentadas que fazem mexer o mercado, eu respiro, consumo e elimino, eu poluo, eu estou aqui, não me podes negar. Por favor, por favor te peço, não me negues, não me tires a pessoa, não sejas assim tão cruel pois eu juro que até gosto de ti. Olha, olha o céu que fui colher de propósito para ti, olha que belo não é? Belo, belo, belo... Mentira, mentira, mentira. Já nem acreditamos em mim, afinal, eu estou deitada a olhar para um tecto."

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