23.7.10

Devido a uma passagem do livro que tanto prazer me tem dado a ler, comecei a pensar quais seriam as palavras que eu usaria para descrever o momento, aquele momento, se alguma vez tu me perguntasses, e reparei que não tinha nenhuma memória muito sólida, vagueava entre sentimentos e pequenos pormenores de pouca importância. Lembro-me que levava uma trança que acabou por se desfazer, e uma camisola roxa que deixei de usar. Lembro-me de textura do seu cabelo, e do seu sabor sempre a tabaco, pouco me lembro do trazia vestido. Não faço ideia que eu trazia calçado, é sempre engraçado o que a nossa memória guarda, pois lembro-me da dor que tinha nos pés, da força que ele exercia sobre o meu pulso e de uma outra dor, que vinha de um sítio tão fundo do meu ser, que não sei se alguma vez sentirei algo assim. Cheguei atrasada, e todos os dias que se seguiram forma passados num estado de pouca consciência, de pouco me lembro, conversas misturadas com risos e idas ao palco, onde ficávamos dias inteiros. (...) Só passado algumas semanas é que me sentei para recordar, nesse dia tive que te contar, e todos os dias que se seguiram foram uma tortura, não me suportava, não suportava nada. Ainda hoje o lamento, pois para mim, é o único momento verdadeiramente real de toda esta história, a imaginação da tua raiva, lamento-o, lamento-o muito.
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