5.10.11

a parte má da história #007



Segundo Rolo (27 de Setembro de 2011 - 4 de Outubro de 2011)


Chegámos. Deixo cair a mala no chão e eu vou caindo também, até que me deito na relva. Gosto de me deitar na relva. Não resisto a este pequeno gesto de liberdade, que nestes últimos meses tantas e tantas vezes tenho vindo a partilhar com ele. Apoio a cabeça nos meus braços e deixo que o vento, como que para me embalar, me corra entre os cabelos e presto alguma atenção ao rio que corre ao meu lado e de olhos fechados, tento adivinhar a forma das árvores que se encontram ao meu lado. Gosto de saber, mesmo mantendo os olhos fechados, que ele já se encontra também ao meu lado, e que veio para ficar.
Faz-me festinhas no cabelo, e eu sei – mesmo ele não dizendo – que fica sempre um bocadinho mais contente quando não o apanho num penteado, digamos que, um bocadinho mais complicado. E no entretanto, de toda esta calma, a voz dele, de repente, um pouco rouca do silêncio que já se demorava por algum tempo, sai disparada para o ar, com uma pergunta que eu não esperava, e ele também não, desconfio.
- Em que acreditas tu, amor?
Começo a pensar, ainda de olhos fechados para poder sentir o preto que me preenche a visão, mas que ainda assim me deixar adivinhar todo o pequeno paraíso que adoptamos como nosso. Levanto-me um pouco, e deito a cabeça na barriga dele. Quero dar-lhe uma resposta sincera, e ele sabe que isso pode levar algum tempo ou ainda troco os pés pelas mãos e as mãos pelos os pés.
- Há uns anos atrás, não muitos na realidade, três no máximo, teria dito que mais do tudo, acredito na família. Depois, sem nenhum motivo em particular, tornei-me um bocadinho mais afastada, mais independente, a viver um bocadinho mais para dentro e achei que o correcto seria proclamar a sete ventos que acreditava era mim, era pois, a única pessoa que podia controlar e conhecer por completo – tontice a minha -, e depois, acreditei no amor. No amor em geral. No amor que se vê na rua, no amor que se encontra nas pessoas à nossa volta, no amor que sinto pela minha família, no amor que se vê nas novelas, que se vê nos filmes, e naquele outro amor, tão avassalador, que julgava sentir. Sim, esse mesmo “amor” que se vai perdendo – ou já se perdeu, não perco tempo a tentar tirar conclusões sobre isso – aos poucos num passado já tão passado e que faz com que custe recordar esse tal sentimento como sincero. Vês? Como poderia eu acreditar numa coisa que com o passar do tempo perde a dimensão? É triste, mas a verdade é que, tudo o acreditei até então são tretas, meras confusões da minha cabeça, puro egoísmo e conversa de quem não sabe o que é, realmente, viver.
Uma pausa longa, espero que ele perceba o que lhe quero dizer, e por isso, dou-lhe mais algum tempo de silêncio. Olho o céu, hoje encontra-se azul e com umas pequenas nuvens, gosto quando está assim, cheio de personalidade, de vida e de história.
- Agora, não gosto de falar no que acredito, no que quero ou no que sonho. Sei que me irei sentir demasiado ridícula ao saber que depois, mais tarde, me poderei arrepender de ter proferido tais verdades e crenças incontestáveis, com a tal convicção de que nada mudaria na minha opinião. Mas também sei agora, que tudo isto são fases da vida, momento que pertencem ao nosso crescimento. Sei que se não errássemos, que senão tentássemos, que se não fossemos experimentando, aqui e acolá, que se não fossemos divagando como poetas da vida – que todos gostaríamos de ser – que nada disto faria sentido.
E a verdade, é que quero que faças parte de mim, das minhas vontades, dos meus hábitos. Quero que faças parte de mim, do meu amor… Quero com isto dizer, que quero que pertenças a mim, que quero que também tu, estejas presente em todo o meu crescimento, em toda a minha aprendizagem, em todas estas pequenas – mas importantes – mudanças, e por isso, meu amor, vou dizer-te tudo o que acredito (não, na realidade, vou só dizer-te uma pequena parte, mas vais já perceber onde quero chegar).
Agora… acredito… na preguiça! – Digo isto, meia séria, meia a brincar. Mas é verdade. Olho para ele, só para confirmar que sorri. Fica sempre muito bonito quando sorri, tem um sorriso honesto.
- Acredito na luz, na magia e na música. Acredito que toda a gente sabe dançar, mesmo que mal. Acredito que todos temos pés são feios, mas já vi alguns bonitos. Acredito na curiosidade. Acredito que a roupa feia pode ser a mais confortável que eu tenho no armário, acredito que no inverno vai chover e acredito na tristeza. Acredito em fazer as malas para ir a lado nenhum e acredito, também, que não precisamos de levar quase nada para viajar. Acredito nas canções de infância, que agora o Tomás sabe cantar tão bem e tão afinadinho (não, não), acredito no teatro e nas emoções que sinto quando me sento naquela escuridão a ver aquelas pessoas. Acredito em fadas e em filmes que me fazem chorar. Acredito em dar a mão, acredito no amor que sinto por ti. Acredito na escrita. Acredito que o Natal nos pode tornar pessoas melhores. Acredito que os guarda-chuvas foram inventados para atrapalhar, acredito que devemos usar protector solar. Acredito que a cenoura faz bem aos olhos, acredito que as redes sociais podem ajudar alguém a encontrar a sua alma gémea, acredito na experiência e acredito, sempre, nas histórias que os livros têm para me contar.
E acredito, que tudo isto nos torna pessoas melhores, mais tolerantes, com uma maior imaginação, mais abertas, mais honestas. Acredito que tudo isto nos pode ajudar a tornar melhores pais, melhores filhos, melhores irmãos e irmãs, melhores amantes e melhores amigos.
Acredito, nas pequenas coisas da vida, que me trazem felicidade. Beber um galão quentinho numa chávena que nos apela a sonhar. Acredito no meu sorriso ao pensar nas coisas boas que já vivi e vou vivendo. Acredito no teu sorriso e no sorriso das pessoas que amo. Acredito em estar aqui contigo, e saber que não preciso, nem quero mais nada. Percebes?

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