23.3.14

MARCEL DUCHAMP

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Pierre Cabanne - Marcel Duchamp, estamos em 1966, daqui a alguns meses você terá oitenta anos. Em 1915, mais de meio século atrás, você foi para os Estados Unidos. Quando olha para toda a sua vida, atrás de você, qual o seu maior motivo de satisfação?

Marcel Duchamp - Primeiro, ter tido sorte. Porque, na verdade, nunca trabalhei para sobreviver. Considero trabalhar para sobreviver um pouco imbecil do ponto de vista económico. Espero que algum dia possamos viver sem sermos obrigados a trabalhar. Graças a minha sorte, passei pela chuva sem me molhar. Compreendi, em dado momento, que não precisava embaraçar a vida com tanto peso, tantas coisas a fazer, tais como um esposa, filhos, uma casa de campo, um automóvel. E eu entendi tudo isso, felizmente, bem cedo. Isto me permitiu viver solteiro por um longo tempo, com as vantagens que não teria, se tivesse que enfrentar as dificuldades normais da vida. Basicamente, isto é o principal. Eu me considero, portanto, muito feliz. Nunca sofri de nenhuma doença grave, ou melancolia, ou neurastenia. Também não conheci o esforço para produzir; a pintura não foi um escape para mim, ou um desejo imperioso de me exprimir. Nunca tive este tipo de necessidade de desenhar pela manhã, à tarde, o tempo todo, fazer croquis etc. Não posso dizer mais nada. Não tenho remorsos.

Marcel Duchamp: Engenheiro do tempo perdido - Pierre Cabanne, pag. 23 e 24

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