2.9.16

à mesinha de cabeceira: debaixo de algum céu

As camadas de tijolo e de cimento de um prédio permitem separar o que nas ruas anda à solta e se mistura sem critério. Pessoas de pessoas, crenças de outras crenças, o prazer da dor, o prazer de outro prazer, quem olha de quem não quer ser visto. As paredes, os tectos e os soalhos são barreiras importantes feitas pelas mãos a espelharem cabeças. O último olhar de um corpo que sai de uma casa: como pareço, como estão os meus cabelos, como estão as minhas ideias, a camisa para dentro, os dentes para dentro, os meus excessos trilhados na compostura. Só as paredes nos deixam ser ainda o que às vezes queremos. (Debaixo de algum céu, Nuno Camarneiro- pág.42 e 43) 
Ofereceram-me este livro num dos meus últimos aniversários. Para mim, livros são óptimas prendas de aniversário (e prendas de outra coisa qualquer) e por isso fiquei super contente com a surpresa. Estava curiosa em relação a este livro, que tinha recebido o prémio Leya 2012, mas não conhecia o suficiente para estar preparada para o género que me esperava. Assim, a primeira tentativa de ler o livro revelou-se um fracasso. O livro não me interessou e não me soube cativar. Já desta vez, este mês, fui escolhê-lo entre os meus livros para ler e fiz isso com uma vontade renovada. Depois de trabalhar para o meu projeto Lugar-Comum, achei que faria todo o sentido rematar esta aventura (será que alguma vez vou rematar verdadeiramente as questões que levantei dentro de mim?) com um livro que relata  as vivências e as banalidades dos habitantes de um prédio à beira-mar, durante oito dias.  

à mesinha de cabeceira: debaixo de algum céu
Somos todos sentimentais e por isso demoramos no que nos dói. Temos o choro fácil que dá ou não em lágrimas, guardamos as dores cheias de pormenor enquanto as felicidades ficam por ali, confusas, com algumas caras, alguns sons, incertas e vagas. Lembramos os sapatos que calçávamos quando alguém morreu, a hora da notícia, o programa que passava nesse instante e até as vergonhas que pensámos. Folheemos as páginas do riso e pouco encontraremos, algumas frases, momentos caricatos, elementos de uma paisagem. Pouco e mal contado, estávamos distraídos, demasiado ocupados na felicidade para lhe fazermos o retrato. Somos tolos e sentimentais, temos arcas cheias de mágoas que não esquecemos e que abrimos a todo o momento para ver se ainda nos doem, e doem sempre. Descuramos o arquivo do bem que apesar de tudo nos vai acontecendo, somos tolos de lágrimas. (Debaixo de algum céu, Nuno Camarneiro - Pág. 74 e 75)
Desta vez o livro soube-me muito bem e foi numa insónia que o li quase todo. Desde da senhora com o seu gato (que poderia muito bem ser a minha vizinha se esta tivesse um gato), o homem que inventava pessoas, o que cria uma máquina de memórias, o padre, o casal, a bebé. Foi reconhecer nestas vivências e relatos a vida do meu próprio prédio (mesmo que noutras personagens e vidas) que me fez gostar do livro. Este lado mais banal da vida, os beijos da miúda, os desenhos do outro, a não-promoção. É uma boa leitura para começar Setembro e faz-nos pensar como será do outro lado da parede, em que se ouve o ruído da televisão? 
Há uma beleza própria do que não tem propósito e uma alegria que vem com ela. O toque simples de uma mão na face, um telefonema sem assunto, um passeio sem destino, um poema secreto, um assobio, uma pedra redonda guardada no bolso. Coisas que não servem senão para sorrir e sentir que a vida é ainda cheia de mistérios. (Debaixo de algum céu, Nuno Camarneiro - pág.78)

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