5.3.19



- No seu último ano de vida, ele queixou-se muitas vezes de que não compreendia, no fundo, em que é que essa solidão, que todos nós tanto tememos, consistia. Mas afinal o que é isso a que chamamos solidão, dizia, não pode tratar-se simplesmente da ausência dos outros; podemos estar sozinhos e não nos sentirmos solitários, assim como podemos estar com outras pessoas e sentirmo-nos sós. Então o que é? O podermos sentir-nos sós no meio da multidão foi algo com que sempre se ocupou. Bom, costumava dizer, não tem apenas a ver com o facto de outros lá estarem também, de ocuparem o espaço ao nosso lado. Mas mesmo que eles nos aprovem ou nos dêem um bom conselho numa conversa amigável, um conselho inteligente e sensível - mesmo então pode acontecer que nos sintamos sós. A solidão, portanto, não é algo que tenha a ver com a presença dos outros, nem com aquilo que eles fazem. Com o quê, então? Com o quê, por amor de Deus?
excerto retirado do livro Comboio Nocturno para Lisboa de Pascal Mercier pág. 314

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