3.1.11

Jacobo viajava sentado no assento junto ao corredor da quarta fila na segunda carruagem do comboio para Lublin, naquela sexta-feira de Janeiro em que a neve caía. Pensava em tudo quanto não tinha conseguido acabar de resolver na grande cidade. Que aborrecimento! Tinha de voltar a viajar na semana seguinte. De repente, um jovem aproximou-se pelo o corredor e, ao passar junto dele, dirigiu-lhe a palavra: - Perdão, senhor, poderia dizer-me as horas? Jacobo olhou para ele de soslaio e, sem levantar a cabeça, disse-lhe: - Não. O jovem não podia acreditar no que ouvia. Já tinha visto a corrente que saía do bolso do seu colete. Não podia haver outra coisa a não ser um relógio na outra ponta dessa corrente de prata! «Devo ter sido pouco claro», pensou, e por isso repetiu o pedido, desta vez indicando com o dedo o bolso onde adivinhava que se escondia a máquina de medir o tempo. - Perdão, a única coisa que queria era que me dissesse as horas... Desta vez Jacobo olhou para ele e, um pouco agastado, disse-lhe: - Já percebi, jovem. E respondi-lhe não! O rapaz não sabia se estava mais surpreendido do que agastado ou vice-versa. De todas as maneiras, honrando ambas as coisas, insistiu: - Desculpa, senhor. Não entendo porque me está a responder dessa maneira. A única coisa que eu queria era saber as horas, como o senhor... O velho interrompeu-lhe o discurso. - Se o senhor entende ou não entende, a mim tanto me faz. A única coisa que eu quero é que me deixe tranquilo e pergunta as horas a outra pessoa. Muito obrigada e adeus. - Olhe, senhor. Eu não lhe fiz nada. Não lhe faltei ao respeito. Não deixei de ser cordial e não lhe pedi nada que pudesse significar um incomodo para si. No entanto, o senhor trata-me como se eu o pudesse contagiar com uma doença grave. Não tenciono ir-me embora até saber porque me trata desta maneira. - Bom. Está bem, está bem. Lamento. Se lhe disse as horas ir-se-á embora? - Não. Agora quero saber o que é que se passa. - Não se vai embora? - Não sem uma explicação. - Não podemos acabar com isto? - contrapôs Dom Jacobo sabendo que estava tudo estragado e que ia ter de explicar a sua estranha atitude. - Não - disse o jovem. E, deixando o seu pequeno pacote com roupa no corredor, dispôs-se a ouvi-lo. - É que eu já sei o que se vai passar... - O que é que se vai passar? - Ai, ai, ai- queixou-se Dom Jacobo, agarrando a cabeça, e depois de uma pausa, continuou: - Se eu tivesse tirado o relógio do bolso para lhe dizer as horas, o senhor teria olhado para ele com atenção, porque o relógio de bolso é muito especial, vê? E dizendo isto tirou do bolso um relógio verdadeiramente maravilhoso, com um mostrador de um fúcsia brilhante e ponteiros talhados em pedra que pareciam brilhar com luz própria. - Que lindo relógio! - exclamou o jovem, sem conseguir reprimir o seu comentário. - Vê? Vê? eu já sabia. Depois, o senhor perguntar-me-ia onde é que tinha arranjado um relógio tão especial. - A verdade é que estava a pensar nisso - admitiu o jovem. - Vê? vê? Eu já sabia. - Não percebo o que é que o preocupa tanto, senhor... - Vê? Vê? Já me está a perguntar o meu nome... que disparate! Jacobo, chamo-me Jacobo. - Continuo sem perceber a sua irritação, senhor Jacobo - disse o rapaz. - Está bem, vou explicar-lhe tudo de uma vez. Afinal, o que se segue é inevitável. Mas NÃO me interrompa... - Prometo - disse o jovem, levantando a mão em sinal de juramento. - Eu digo-lhe as horas. O senhor surpreende-se com o relógio e pergunta-me onde o arranjei. Eu acabo por lhe contar que mo deu o meu avô. O senhor agradece-me e pergunta-me o nome. Eu digo-lhe que me chamo Jacobo e não lhe pergunto como se chama, porque a mim pouco me importa como o senhor se chama. O senhor pergunta-me para onde vou, digo-lhe que ou a Lublin e não lhe pergunto para onde vai porque não gosto de fazer perguntas estúpidas, porque sei que o senhor também vai para Lublin porque o comboio acaba o seu percurso em Lublin. O senhor pergunta-me se eu vivo lá ou se estou de passagem e eu respondo que vivo lá, embora não lhe diga mais nada porque eu sei que não vive em Lublin, porque se fosse de Lublin eu já saberia. Mas, claro, o senhor chega a Lublin numa sexta-feira ao entardecer, seguramente para esperar o comboio da manhã com destino a Praga, porque para que outra coisa iria um judeu a Lublin numa sexta-feira e porque passaria alguém por Lublin se não fosse judeu. Acontece que, depois desta conversa estúpida, eu vou chegar à minha cidade para me preparar para o Sabat, mas vou ver-me obrigado a convidá-lo a si para a minha mesa, porque não poderia dormir tranquilo deixando um judeu sozinho na véspera do Sabat numa cidade que não conhece. O senhor é muito amável e, assim sendo, aceitará com prazer este convite inesperado e esta noite terei de o aguentar em minha casa, à minha mesa, e partilhar consigo a nossa comida, que a minha própria esposa cozinha com as suas duas mãos de ouro. Isso não seria assim tão mau se não fosse porque também partilhará da nossa mesa Samuel, que jogará consigo xadrez, porque que espécie de judeu seria o senhor se não soubesse jogar xadrez, e isso não seria motivo de preocupação, qualquer que fosse o desfecho da partida, se não fosse o facto da minha filha Sara também estar a presenciar tudo. E a minha filha Sara é solteira, por causa da sua desafortunada decisão de não querer aceitar casamento nenhum dos jovens solteiros de Lublin, porque os conhece desde de sempre. Isto não seria grave se não fosse o facto de o senhor ser bem-parecido e solteiro, porque não traz aliança, coisa que eu já notei, e ter uma conversa interessante e ter percorrido muito mundo, pois, senão, não se atreveria a viajar para uma cidade sem saber com quem se vai encontrar. Ela vai enamorar-se de si, o que não seria muito grave se o senhor também se enamorasse dela, porque poderia alguém conhecer a minha maravilhosa Surele sem se enamorar dela? Assim, é óbvio que na próxima sexta-feira, teremos outra vez de o receber em casa porque Surele pedir-nos-á que o convidemos, e eu já sei que, seja o que for que ela me peça, eu não lho posso negar. E tudo continuará assim durante meses até que um dia... Um dia, daqui a nada, o senhor e ela viriam dizer-me que querem casar... - Jacobo respirou pela primeira vez em todo o seu discurso e, batendo com o punho no apoio para os braços da cadeira, quase gritou: - E eu não quero que a minha única filha se case com um idiota que não tem dinheiro para comprar um relógio!! Entendido?!

Conta comigo - Jorge Bucay
pág. 47 a 50

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