26.2.19

o azul é temporário.

Sem título
auto-retrato 2/12, com ajuda do lupa

gosto do que fizeste com o cabelo. esse azul é bonito. isso não é azul, é verde. seja como for, o azul é temporário apresso-me a dizer. temporário é a palavra de ordem na minha cabeça. temporário. de passagem, de não ser completo. de não existir um futuro. um amor temporário, uma amizade temporária, uma pessoa temporária, um sítio temporário. temporário. não fica. tem-po-rá-ri-o. tudo em modo de passagem. em estar cá com tudo e um dia acordar e não restar nada. de um ser e deixar de ser, não ser tão importante assim. não ser a prioridade, não ser. ser memória de segundos e mais uma vez o coração partido. repito para mim que me habituo, que não preciso de ninguém, que sou sozinha e sou bem. temporário-temporário-temporário. repito e tento convencer-me a mim própria que está bem assim. encho a rotina, deixo-me dormir. prometo-me que passa. que é apenas temporário.

mas talvez, penso com esperança, talvez temporário queira apenas querer dizer livre.
livre para ser inteira por mim, para mim, só para mim. 

19.2.19



- No seu último ano de vida, ele queixou-se muitas vezes de que não compreendia, no fundo, em que é que essa solidão, que todos nós tanto tememos, consistia. Mas afinal o que é isso a que chamamos solidão, dizia, não pode tratar-se simplesmente da ausência dos outros; podemos estar sozinhos e não nos sentirmos solitários, assim como podemos estar com outras pessoas e sentirmo-nos sós. Então o que é? O podermos sentir-nos sós no meio da multidão foi algo com que sempre se ocupou. Bom, costumava dizer, não tem apenas a ver com o facto de outros lá estarem também, de ocuparem o espaço ao nosso lado. Mas mesmo que eles nos aprovem ou nos dêem um bom conselho numa conversa amigável, um conselho inteligente e sensível - mesmo então pode acontecer que nos sintamos sós. A solidão, portanto, não é algo que tenha a ver com a presença dos outros, nem com aquilo que eles fazem. Com o quê, então? Com o quê, por amor de Deus?

12.2.19

as razões do coração



o verão passado eu estava sentada na praia e ele disse-me estou aprender alemão, pode ter sido outra idioma qualquer, mas para o efeito da história que te vou contar, mandarim também serve. perguntei o porquê e recebi um razões do coração, são sempre as piores. acho que concordei, mas não tenho a certeza, o verão parece ter sido há muitas mais estações atrás e se me perguntares o porquê, bem, terei que dizer razões do coração, também.

deparei-me com esta ideia, a de colocarmos o coração nas mãos de outrem, ainda muito nova. para ser sincera contigo, numa idade em que ninguém está preparado para viver a sua primeira grande paixão. eu muito menos, que em nada sou especial. culpo a minha alma curiosa, sensível e louca. e já que estamos a ser sinceros, também a culpo pelo o meu primeiro beijo. que não recordo, apenas recordo que foi com o rapaz errado, completamente errado.

acho que agora diz muito sobre as minhas relações e o amor, nem sempre estão de mão dada.

por estas mesmas razões e durante cinco anos procurei saber mais sobre história, natação e as raparigas a quem ele dava a mão. sim, é isso, apaixonei-me por um rapaz que gostava do passado, muito mais inteligente que eu, um pouco mais velho e que nunca se apaixonou por mim. um dia, e muitos dias depois desse, disse que me amava. agora sei que não é verdade, mas por razões menos sensatas deixei que me partisse o coração tantas vezes quantas quis e planeei que um dia poderíamos fugir para um país distante.

acho que agora diz muito sobre a minha incapacidade de acreditar nos sentimentos dos outros. e olha, nos meus também.

uma paixoneta paixão que é a razão de tanta escrita, de gostar disto, das fotografias e de tudo o que fiz, de tudo o que se tornou rotina, que se tornou tão eu que é difícil imaginar um tempo em que não foi assim. tudo o que não podia dizer, eu escrevia. tudo o que não sabia como dizer, eu fotografava.

por razões do coração, as piores de sempre, tornei-me artista.

5.2.19




NOBREZA SILENCIOSA. É um erro acreditar que os momentos decisivos de uma vida, nos quais a sua direcção habitual se altera para sempre, têm forçosamente que ser de um dramatismo ruidoso e lancinante, agitado por violentas pulsões interiores. Isso não passa de uma ilusão kitsch, de historietas inventadas por jornalistas ébrios, realizadores sensacionais e escritores em cujas cabeças circulam as fartas tramas dos pasquins. Na verdade, o dramatismo de uma experiência decisiva é, não raras vezes, inacreditavelmente silencioso. E tão poucas afinidades ela tem com o estrondo, a labareda e a erupção vulcânica que, na maior parte das vezes, ela nem sequer é apercebida no momento em que é efectuada. Quando mais tarde liberta o seu efeito revolucionário, fazendo com que a vida seja vista sob uma luz completamente diferente e ganhando como que uma melodia própria e absolutamente original, então isso acontece silencionsamente, e a sua nobreza específica consiste precisamente nesse espantoso silêncio.
excerto retirado do livro Comboio nocturno para Lisboa de Pascal Mercier na pág. 49
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